sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A esperar

Já faz um tempo que eu sou a mesma
e que o relógio não roda por aqui.
O mundo já parou de girar faz tempo, meu bem
E eu ainda continuo no meu lugar de origem,
aonde nos vimos pela última vez.

Tô sentada nesse banco de praça
esperando o sol se pôr
e vendo meu relógio quebrado ir e vir
um segundo a mais, um a menos...

Sentindo o frio que o sereno vem trazendo,
eu faço do tempo o meu melhor amigo.
Leio um livro
e logo, logo a noite vai cair...

Ah, meu bem
não vamos fingir que não sabemos
o fim dessa história.
Ora lá,
o mundo uma hora volta a girar
e aí eu vou estar bem aqui
e você também.

Nesse banco de praça,
como um casal de cinema.
Com meu relógio que o tempo não passa,
nem para.
Pra gente se enganar um pouco de novo,
até que o mundo pare novamente
e vão todos girar sozinhos,
enquanto eu fico aqui nesse banco,
vendo meu relógio ir e vir,
sentindo o sereno de cada noite,
sendo a mesma a cada hora,
a esperar o começo da nossa história mais uma vez.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

De flor em flor

Hoje vi um beija-flor que voava de flor em flor. Era pequeno, o pobrezinho, dentro daquele grande jardim. Havia flores nas quais ele se escondia, mas mesmo assim era cheio de graça. Muito colorido, ele, diferente de todos que já vi. Suas asas cintilavam o brilho do sol, que ardia forte no céu. Ausente de qualquer barulho que pudesse vir, fiquei fascinada com o pequeno bichinho. Não pude ter certeza, mas penso que ele caberia na minha mão, se possível. Voava graciosamente, rodopiava como uma bailarina no céu. Era suave como a brisa que vinha de quando em quando. Sentada na grama, não podia ver ou ouvir mais nada além daquele pequenino bichinho. Não há nada melhor do que se encantar de manhã cedo com algo tão natural. Eu sorri. Pois tinha certeza que dali em diante, nada estragaria meu dia: me apaixonara por um beija-flor antes mesmo de abrir os olhos.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Quero

"Quero que todos os dias do ano,
todos os dias da vida,
de meia em meia hora,
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.


Ouvindo-te dizer "Eu te amo",
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas, que me amas, que me amas.
Do contrário, evapora-se a amação,
pois ao não dizer "Eu te amo",
desmentes,
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra.
Nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor."


(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Como quiser

Ah, vai
brinca de amar.
Tira e põe
assim sem questionar.

Vem, me faz amar alguém.
Me faz pensar no bem
sem ter que pensar a quem.

Ah, vai
vamos fazer disso uma perseguição
brincar de cão e gato
sem pensar no coração!

Ah, vai
vamos deixar acontecer.
O que vier, virá
ainda sem o amanhecer.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Querido coração,

hoje um novo sol apareceu para radiar meu dia.

Me cansei daquelas tardes monótonas nas quais lhe torturava com meus sentimentos e decidi me trazer um novo amor.

Seu nome é Saudade.

Bate em minha porta todas as manhãs, como quem não quer nada. Está sempre por perto, mas nem sempre presente. Vem e vai assim que dá vontade.

Ela é traiçoeira às vezes, eu assumo.
Mas me conforta sempre que preciso... Me traz boas lembranças.

Anda sendo uma ótima companheira para os momentos de solidão, que são quase todos.
Ela me faz entender coisas que antes não tinham sentido.

Boba, essa Saudade, que não me faz sofrer e nem me faz feliz!
Não sei se ela vai durar muito.
Mas enquanto ela fica por aqui, vamos ver no que vai dar.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Letras de sangue

Recebi uma carta
escrita em vermelho, amor.

Nela palavras soavam com graça
o sentimento que rodeava
a minha cabeça, amor.

Mas nada daquilo era real,
nada daquilo era pra você.

Fechei meu mundo,
me perdi por ti.

Qualquer letra pontilhada
que vasasse em lágrimas
um sentimento teu
não chegaria aos pés
do sofrimento que tive
por receber uma carta,
escrita em vermelho,
que não eras tua, amor.

sábado, 19 de junho de 2010

Fora do comum

Sempre fui boa com as palavras.
Sempre fui boa para escrever o que sinto, o que penso, o que quero dizer.
Sempre fui boa para me expressar.

Mas dessa vez eu não encontro palavras pra me definir. Não sei se vazio, escuro e só seria o certo, ou se está tudo tão colorido que não sei explicar. Não sei se o que explode dentro de mim é confusão ou é simples calmaria.

Não sei dizer se eu quero amor ou se eu quero estar sozinha. Não sei mais andar por mim mesma e não tenho mais chão algum.

Não sei se quero ver o céu ou se quero ver a chuva cair. Não sei se eu quero me sentir viva ou quero ver o mundo acabar.

Não sei se quero que saibam quem sou e que pensem no que vou fazer.

Eu sei que eu não quero que ninguém espere mais nada de mim, que eu ando surpreendendo nem a mim mesma. Não quero preconceitos e nem ao menos conceitos.

Eu quero deixar que aconteça, pois agora sim, mais do que qualquer outra vez, eu me sinto perdida. Pois além de perdida do mundo, eu estou perdida de mim mesma.

domingo, 30 de maio de 2010

Algumas velas na cabeceira

Era uma típica noite de quarta-feira. Voltou do trabalho tarde, cumprimentou o porteiro e subiu as escadas até o quinto andar. Abriu a porta, escarrou no canto da parede, largou seu terno em cima da mesa e jogou-se no sofá.

Tinha sido um daqueles dias em que ele não pensava em mais nada além de sua cama o dia todo. E, quando chegava em casa, não recuperava forças para chegar até o quarto. Ficava parado alí, na sala.

Suas mãos estavam sujas, suas costas pesadas. Havia passado o dia fazendo tratos e fechando negócios. Mas pior que sua mão ou suas costas, a sua alma estava estraçalhada. Se é que ele podia chamar aquilo de alma.

Pôs a água da banheira da suíte para esquentar enquanto ia atrás uns pedaços velhos de carne que tinha na geladeira. Não foi capaz de comê-los; seria abusar da própria consciência. Fritou alguns ovos e botou-os para dentro.
Colocou mais uma vela na coleção que havia ao lado da janela. Acendeu-a com as mãos no peito, o coração apertado, mas manteu-se firme.

Andou pelos corredores do seu apartamento 4 quartos, no qual moravam apenas ele e algumas outras almas vagabundas.
Pôs o relógio ao lado da banheira, abriu a janela, e deitou-se na água fervendo - sabor de eucalipto.
Olhou no relógio: 23:43. Estava chegando. Fechou seus olhos, esperou sua hora.


23:45. Foi certeiro. O tiro pousou exatamente na cabeça do sujeito. Alguns vizinhos se desesperaram. Mas ele não. Não foi em paz, mas sabia que era justo. Foi sabendo muito bem que pra onde ele iria provavelmente não encontraria nenhuma sequer daquelas velas acesas ao lado de sua cama. Deixou-se ir, sabendo que era o certo a se fazer.
Foi obrigado a deixar seu corpo, assim como já havia obrigado outros bocados e deixá-los também.

sábado, 29 de maio de 2010

Uma paixão

É o frio na barriga
que vem de tempo em tempo.
Que me deixa sem ar,
me deixa boba.

É o lance do "vai-não-vai",
são as perguntas sem resposta.
São as ligações inesperadas,
as cartas de desculpa.

São as brigas,
as conciliações.
São as descobertas,
as novas sensações.

É tudo que muda,
que ajuda,
que desnuda.

É a pureza do sentimento,
é a inocência do sorriso.
É o aconchego do abraço,
o carinho do beijo.

São os tratos,
os maus-tratos,
os estratos.

É tudo que atrapalha,
e que depois se acerta.
É tudo que transforma a vida em paraíso.

É tudo que se aceita.
É tudo que se quer.

É o amor que se tem
e que se perde.
Mas é o amor que nunca se esquece.

Descobrindo novos conceitos

Estava me lembrando da minha infância um dia desses. Lembrei-me de quando eu ia pra casa da minha vó e chovia.... Parecia sinal de escola: todas as crianças estavam em baixo do bloco imediatamente. A gente escorregava na beirada do piso e o mais legal era chegar antes de o porteiro começar a limpar. Depois que a gente era expulso, a gente ia pra chuva mesmo, brincar na grama, com bolas, arminhas de água...

Bem, nesse mesmo dia em que me lembrei disso, choveu. E eu fui pra casa dos meus primos. Quando eu cheguei lá, senti um tremendo desconforto: cada um estava em um cômodo diferente da casa. Meu tio estava vendo televisão na sala. Minha tia, pintando a unha no quarto. E meus primos estavam no computador.
Senti um arrepio ao ver aquilo. Já estava achando estranho não ter nenhuma criança brincando na rua àquela hora e, quando subo, me deparo com as minhas crianças de frente a um computador.
Não pude fazer nada. Quando dei a ideia de descer pra brincar, fui totalmente repirimida - me senti a criança daquele quarto. Me olharam com total cara de desprezo e falaram que não podiam brincar na chuva, que iriam se molhar e adoecer.

Fiquei chocada e quando cheguei em casa só pensava naquilo. Fiquei pensando se era isso que eles faziam todos os dias: computador. Se era aquela a interação que eles diziam familiar ou se era normal tudo aquilo e eu era a errada na história. Mas depois de pensar muito, eu vi que eu estava certa. Que aquilo não era normal. Que não era tampouco saudável deixar uma criança trancafiada dentro de casa. Pior: não era saudável a própria criança querer ficar dentro de casa.

Acho que o mundo está cheio de "novos conceitos" e eu esqueci de me atualizar. Acho que hoje em dia a diversão da juventude não é o que eu chamava de diversão. Não se vêem mais famílias reunidas aos domingos, crianças brincando de bola nas ruas, jogando confete nos carnavais.

O conceito de diversão agora é ficar em casa jogando video game. É manter a sua roupa e cabelo impecavelmente limpos e arrumados, e não ver mais graças nas antigas brincadeiras de roda. É ouvir funk e ir à festas Disco.

Não consigo ver como serão os jovens do futuro. Todos tão preocupados com o mundo que deixaremos para os nossos filhos... Eu estou mais preocupada com os filhos que deixaremos para o mundo.

Tenho medo da falta de informação, da falta de conteúdo, da falta de humildade e compaixão que nascerá dentro dessas pobres crianças. Queria ser capaz de mudar tudo isso. Queria colocar o mundo dentro de cada um dos nossos futuros cidadãos